terça-feira, 12 de novembro de 2019

Primeira Cartilha Yanomami para Oncocercose


O Programa Brasileiro de Eliminação da Oncocercose no Brasil, iniciou operativamente no ano de 1993.

Após serem feitos os levantamentos básicos (entomológico e parasitológico) em toda a área que compreende a Terra Indígena Yanomami & Ye´kuna (durante os anos 1993 a 1995), foram determinadas as diferentes endemicidades [não endêmicos, hipoendêmicos (acima de zero até 20%), mesoendêmicos (21 a 59%) e hiperendêmicos (de 60% para cima). Esta convenção de valores de endemicidade foi proposta pelo Programa de Eliminação da oncocercose para as Américas - OEPA)

Como Projetos Pilotos para serem iniciados os tratamentos, foram escolhidos dois Polos de Saúde no Estado do Amazonas (Toototobi - Mesoendêmico , Balawa-ú  - HIperendêmico), e Xitei/Xidea - Hiperendêmico,  no Estado de Roraima).. A principal razão para a  escolha destes Pólos de Saúde foi que os mesmos já possuíam base fixas para as equipes de saúde o que já proporcionava atendimentos de forma continuada, o que foi, especificamente, importante para o início dos tratamentos da oncocercose. 

No Estado do Amazonas os tratamentos iniciaram em 1995 e em Roraima em 1996.

Em Xitei/Xidea, antes de serem iniciados os tratamentos, foi necessário caracterizar a enfermidade para os Yanomami, já que os mesmos não reconheciam a mesma como tal, pois os três principais sintomas não eram reconhecidos como provenientes de uma enfermidade, mas sim:
1. Coceira - Proveniente de ações dos inimigos que sopravam venenos, ou contato com plantas urticantes;
2. Enrugamento da pele - Consequência de alguma relação espúria entre os indivíduos 
2. Cegueira - Consequência da idade.

Após serem feitas muitas "palestras", e disponibilidade de observações em microscópios para verem as microfilárias obtidas pelo procedimento de biópsia da pele, eles conseguiram associar os "filhotes" de vermes obtidos da pele, como descendentes dos "vermes pais", grandes, que saiam nas fezes após serem tratados com vermifugo comum, criando para eles uma entidade nominal chamada "oncocercose". Achando uma justificativa "real" para aceitarem os tratamentos.

Como uma tentativa de obter um retorno do entendimento foram feitos "cursos" que poderiam esclarecer os elementos (vetores e pessoas não tratadas) envolvidos na presença de tal doença entre eles.

No final, dos entendimentos, foi solicitado um tipo de manual (cartilha) feito por eles mesmo.
O Primeiro resultado apareceu, e está disponível a seguir.




Após os resultados de entendimento e aceitação de serem tratados, foi iniciada a fase medicamentosa, que se estende até hoje.

Foi essencial para que os trabalhos de esclarecimento da "novidade" oncocercose, para os Yanomami,  surtissem efeito, a presença da missionária Ninfa Rosas, sempre alegre e totalmente disponível, que tinha como uma das muitas funções, ser educadora na própria cultura Yanomami.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

ONCOCERCOSE - ATIVIDADE VERTICAL DE HEMATOFAGIA DE SIMULIIDAE - TERRA INDÍGENA YANOMAMI (BRASIL/VENEZUELA)

Py-Daniel,V. & Luz,B.B. & Trevisan, G.V. & Souza, F.S. & Medeiros,J.F.


CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

Este estudo preliminar foi desenvolvido em julho de 2001 nas áreas de duas comunidades indígenas Yanomami, uma comunidade denominada Watatas, na beira do Rio Parima (Figura 2), na época onde se localizava o centro operacional de saúde do Poló de Saúde Xitei-Xidea do DSEI-Y e base de um  Posto da FUNAI, e outra comunidade chamada Ropou (Figuras 3 e 4) e localizada em águas do  Rio Orinoco, Venezuela.

A comunidade Ropou, na época do estudo, mesmo estando em território venezuelano (as águas que nascem nesta região pertencem a bacia hidrográfica do Rio Orinoco), era atendida pelo DSEI-Y do Brasil. Esta região de fronteira deverá sofrer outro ajuste demarcatório, pois ainda hoje a área apresenta erros que incluem território venezuelano como pertencente ao Brasil, o que, na época, permitia tais ações de saúde. Atualmente os membros da comunidade Ropou, assumindo outro nome comunitário, migraram para o território brasileiro e usam a área original, dentro da Venezuela, como área de caça, coleta, e movimentações dentro das relações inter-comunitárias.

A comunidade Watatas ainda está localizada em  02o36´25” N / 063o52´18¨O, enquanto a comunidade Ropou estava situada em 02o27´11¨ N / 063o52´09¨O.


Figura 1 - Localização das comunidades Watatas (Brasil) e Ropou (Venezuela)


Figura 2: Localização da comunidade Watatas, evidenciando a pista de pouso e a montanha Xitei na esquerda.


Figura 3: Localização da comunidade Ropou. evidenciando as vertentes hídricas que correm para o Rio Orinoco.



Figura 4: Vista da Shapona de Ropou


PARÂMETROS AMBIENTAIS

Tendo em vista que a distância linear entre as comunidades Watatas (Xitei/Xidea-Brasil) e Ropou (Venezuela) era cerca de 17 Km (Figura 1), se presume que os fatores macro-ambientais não diferiram muito entre as duas localidades, mesmo que a comunidade venezuelana estivesse um pouco mais alta que a brasileira, e que ambas estivessem em bacias hidrográficas diferentes. As altitudes das duas comunidades eram cerca de 750 metros para Watatas e 900 metros para Ropou. A altitude de divisória hídrica, entre Brasil/Venezuela (entre as duas comunidades) é de 1.100 metros.


OBJETIVOS

Estes experimentos foram relacionados para observar se existiriam diferenças entre as atividades de hematofagia dos simulideos, em seres humanos, ao longo de um perfil vertical (na área próxima ao solo e em um ponto acima de 30 metros de altitude). A escolha de 30 metros de altitude teve como indutores observações que a dispersão das fêmeas adultas (monitoradas em outros experimentos anuais relacionados com a transmissão da O. volvulus) indicavam que também era feita acima da copa das árvores, local onde aproveitavam a presença de correntes aéreas que facilitariam tal atividade, e não só pela calha dos cursos d´água, margeada pela própria floresta. A altura média das árvores na região estudada ficava entre 30 e 40 metros. A existência de diferenças esperadas incluíam: (a) densidade de picada, (b) diversidade da simulidofauna com atividade de hematofágica em seres  humanos, (c) diferenças na transmissão ao longo da verticalidade e em que níveis.

AJUSTES PARA OS EXPERIMENTOS

Fez parte da equipe um especialista em segurança na atividade de escalada em árvores (Luz,B.B), que além de proporcionar todos os equipamentos apropriados para tal atividade acompanhou nos experimentos como um dos coletores ao nível de 30 metros. Dois coletores-colaboradores sempre participaram das atividades de coleta dos experimentos, tanto na base das árvores como a trinta metros. As coletas foram feitas por meio de coletores de sucção e o material de simulídeos sendo acondicionado em vidros com álcool a 70%. A ultrapassagem do cabo, nos galhos das árvores, ao nível de 30 metros foi executada por flechas jogadas pelos Yanomami, nas quais estavam amarradas as cordas guia. Os tempos para os experimentos, tanto os de base das árvores como a trinta metros não foram iguais, nas duas localidades: Em Watatas (Figura 5) o tempo foi de 60 minutos, e em Ropou (Figura 6) foi de apenas 30 minutos. Esta diferença na escolha de tempo, foi resultante da extrema densidade de picada na localidade Ropou, que tornava insuportável qualquer atividade de campo sem a proteção de repelentes (Figura 4). 





Figura 5: Ajuste dos equipamentos e subida de um dos colaboradores ao nível de 30 metros, em Watatas.

Figura 6: Ajustes dos equipamentos e subida de um dos colaboradores ao nível de 30 metros, em Ropou


RESULTADOS

Foram coletadas apenas três espécies (Figura 7) de simulídeos no período do experimento, em ambas as áreas: Psaroniocompsa incrustata (Lutz, 1910), Thyrsopelma guianense (Wise, 1911) e Ectemnaspis bipunctata (Malloch, 1912). Mantemos gênero Ectemnaspis Enderlein, 1934 por discordarmos com su a sinonimização com o gênero Psilopemia Enderlein, 1934. Assim como também mantemos a espécie bipunctata como válida, ou seja, não sendo sinônimo de ochracea (Walker, 1861). Maiores desenvolvimentos em referência a taxonomia serão apresentados em futuros trabalhos não inclusos neste blog.



Figura 7: Resultado do número de simulídeos coletados em atividade hematofágica nas duas comunidades 


Em ambas as comunidades, ao nível do solo (base), ocorreu a atividade de picada em percentuais acima de 80% do total coletado (Ropou = 83,84% / Watatas = 88,13%), sendo que os percentuais específicos, representam, principalmente a atividade de P.incrustata (Ropou - 91,7% / Watatas - 94,9%). Figura 7.

Py-Daniel et al. (2000) propuseram separar os períodos hidro-climáticos da região de Xitei/Xidea em três características: (1) - Seca - que compreende os meses de novembro a fevereiro, (2) - Chuva-1 - que compreende os meses de março a junho, (3) - Chuva-2 - que compreende os meses de julho a outubro.

Um melhor entendimento da dinâmica de dispersão hídrica/aérea dos simulídeos, vetores da O. volvulus, pode ser encontrado em Py-Daniel & Py-Daniel (1998) e em Py-Daniel (2015, atualizado em 2019)..

Os experimentos foram desenvolvidos no início do período denominado “chuva-2” que corresponde ao período de vazante das águas nesta região. Neste período predomina P.incrustata nas atividades de picada. Este período também foi assinalado por Py-Daniel et. al. (2000), para Watatas, como o decréscimo de encontro da fase L3 da filária O.volvulus em P.incrustata e o aumento do encontro desta fase em T.guianense.

Em Watatas o decréscimo/aumento na densidade de picada está proporcionalmente relacionado a disponibilidade dos diferentes tipos de substrato nos criadouros para as diferentes espécies. A maior densidade de picada de T.guianense foi assinalada exatamente no período de “chuva-2” onde ocorre a baixa dos níveis hídricos nos criadouros e o aparecimento de maior disponibilidade do substrato preferencial para esta espécie que são plantas da família Podostemaceae, que se localizam acima das rochas, nas cachoeiras. A maior densidade de picada de P.incrustata foi assinalada entre o meio posterior do período “chuva-1” e meio anterior do período “chuva-2”, que corresponde a subida das águas nos criadouros, e portanto a maior disponibilidade de plantas marginais que ficam em contato direto com as águas. Para P.incrustata os maiores índices de aparecimento da fase L3 da filária O.volvulus, foram encontrados, exatamente, no período posterior de “chuva-1”. Para T.guianense, os maiores índices de aparecimento da fase L3 da filária  O.volvulus foram encontrados no período denominado de  “seca” e início de “chuva-1”.

Souza & Py-Daniel (2007) comparando as movimentações das populações Yanomami quanto a chegada/saída em/de Watatas assinalam que o período “chuva-2” foi preferencial para as populações provenientes das regiões sul/sudeste de Xitei/Xideia (onde ficava a comunidade Ropou) virem para Watatas a procura de uma melhor qualidade de saúde, sendo concomitante com o maior encontro da fase L3 da filária O.volvulus em T.guianense.

Portanto, os experimentos de comparações de coletas na verticalidade, descritos neste trabalho, privilegiaram tanto a época de maior densidade de picada de P.incrustata, nesta macro-região da fronteira Brasil/Venezuela como também, o maior encontro das fases da filária O.volvulus neste vetor.

Examinado a Figura 7 podemos observar que P.incrustata, em ambas as comunidades, apresentou a maior densidade de picada em relação as outras espécies (Watatas – 94,9%; Ropou – 91,7%), enquanto as outras espécies: T.guianese (Watatas – 1,7%; Ropou – 5,9%), E.bipunctata (Watatas – 3,4%; Ropou – 2,4%).

Se observarmos os estudos na obtenção do PTA (1995-1996), desenvolvidos por Py-Daniel et al (2000) para a região de Watatas, poderemos constatar que no mesmo mês de julho a densidade de picada de P.incrustata (obtida por coletas de quatro dias sequenciais) foi de 82,8%, sendo para T. guianense de 12,2% e E.bipunctata zero. Foram aqui excluídos os números de outras duas espécies: N.exiguua e C.oyapockense. Estas espécies não apareceram nas coletas dos experimentos de verticalidade (tanto Watatas como Ropou). Também é importante ressaltar que a região de Watatas fica situada e 750 metros de altitude, com o Rio Parima, com volume hídrico razoável, se localizando muito perto do local das coletas (mais propício para presença das espécies excluídas) enquanto que a região onde estava situada a comunidade de  Ropou ficava a uma altitude de 900 metros e sem um curso hídrico de volume em suas redondezas. Estas diferenças implicam mais para a presença/ausência de T.guianense.

Portanto, a maior densidade de picada de P. incrustata em ambas as comunidades, era esperada e está relacionada diretamente com  a maior oferta da disponibilidade dos substratos nos criadouros na época do experimento de verticalidade.

Também era esperada que esta densidade de picada fosse maior em Ropou do que em Watatas, tendo em vista que Ropou  se localiza em um estrato altitudinal mais elevado, onde se tornam, na época coletada,  presentes maior número de criadouros que privilegiam P.incrustata. Assim, como também, era esperado que em Watatas a densidade de picada de T.guianense fosse menor, pela quase ausência do substrato preferencial, para esta espécie, nesta época e setor do Rio Parima.

Quanto aos números de exemplares coletados de E.bipunctata em ambas as comunidades (Ropou: n=14; Watatas: n=2) eles se referem quase que exclusivamente as coletas no nível de 30 metros de  altura (93,75%, n=15), corroborando ser uma espécie de preferência alimentar na fauna arborícola (aves, e mamíferos). As razões para as coletas destes números para E.bipunctata são fortificadas quando observamos as proporções diferenciais entre base e copa das outras duas espécies [(Watatas: copa = 8,8% / base =  91,2%) (Ropou: copa = 14,28% / base = 85,73%)]. As proporções para P. incrustata nas duas comunidades foram (Watatas: copa = 7,14% / base = 92,86%; Ropou: copa = 14,5% / base = 85,5%). As proporções para T.guianense nas duas comunidades foram (Watatas: copa = 100% / base = zero; Ropou: copa = 11,43% / base = 88,57%), ressaltando que o 100% de Watatas representa apenas um exemplar. Outra observação que deve ser levada em consideração é que o número de exemplares coletados de E.bipunctata, na altitude de 30 metros (n=13), em 30 minutos, em Ropou, foi superior ao total encontrado no experimento desenvolvido por Py-Daniel et. al. (2000) para a obtenção do PTA, em Watatas (n = 10), que abordou 4 dias por mês em um período de 12 meses ao nível do solo.

Para as principais espécies vetoras (P.incrustata e T.guianense) da filária O.volvulus, na área estudada, mesmo que a principal dispersão das fêmeas tenha sido por cima da copa das árvores, elas apresentam uma atividade de picada preferencial em alturas ao nível próximo do solo.

INFECÇÃO NATURAL

Watatas não apresentou exemplares de simulídeos com O.volvulus. Ropou apresentou dois exemplares de T.guianense (2L1 + 2L1) e um exemplar de P.incrustata (1L1). Assim, em Ropou, a (TI) para T.guianense foi de 5,71 (n=35 / p=2), e para P.incrustata foi de 0,18 (n=539 / p=1). A (TI) total para a área foi 0,52.


O encontro diferencial de simulideos positivos, para O.volvulus. em Ropou e todos negativos em Watatas, pode ter como base que em Watatas as populações humanas residentes ou visitantes eram todas medicadas com Ivermectina e que em Ropou, as populações visitantes de outras áreas da Venezuela, muitas vezes,  não eram tratadas.



OBSERVAÇÕES COMPLEMENTARES 

As reclamações, quanto a picada dos simulídeos ("ukuxipi") por parte dos membros da comunidade Ropou (Figura 10) eram muito mais acentuadas do que na comunidade Watatas. Em Ropou, um indivíduo não suportava uma hora, em seus seus trabalhos diários, sendo atacado pelos simulídeos, enquanto que em Watatas, sem muitas reclamações, ele suportava um dia completo. A Shapona de Ropou apresentava uma paliçada, feita de talas cortadas de palmeiras, na parte interna, que separava, o centro da mesma a as áreas consideradas como núcleos familiares ("yano"). Nestes "yanos" também predominava a fumaça proveniente das fogueiras familiares, como um fator que diminuía a presença de simulídeos em atividade de picada.


DENSIDADE DE PICADA COMPARATIVA ENTRE AS DUAS COMUNIDADES

Se observarmos a situação comparativa da Densidade de Picada de simulideos na comunidade Ropou com a comunidade Watatas, fazendo uma projeção para um período de uma ano [os dados usados para comparar sendo os obtidos na obtenção do PTA, em Watatas (1995-1996)] teremos que um período de coleta de 30 minutos em cada uma hora fornecem 375 minutos de coleta em um dia. Sendo que estes dados apenas representam a metade dos horários diários para a atividade de picada, ou seja, deveríamos multiplicar por dois. Os dados de Ropou, assim, representam as projeções mensais, proporcionais, comparadas (Figura 9).

Figura  9: Estes números, em projeção para Ropou, demonstram a razão pela qual os Yanomami não ficavam tranquilos durante o período solar diário, e também em não sendo feito o tratamento da oncocercose, a nítida razão para uma  manutenção acentuada da transmissão.

Figura 10: Resultado da extrema densidade de picada de simulideos em qualquer pessoa após ficar 30 minutos em exposição, em suas atividades normais na comunidade de Ropou





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



Py-Daniel,V. (1997) - Oncocercose, uma endemia focal no hemisfério norte da Amazônia. in: Homem, Ambiente e Ecologia no Estado de Roraima (eds. Barbosa,R.I., Ferreira,E.J.G & Castellón,E.G.). INPA, Manaus. 630pp. [Trabalho referente as atividades entre 1993 e 1995]

Py-Daniel,V. (2015) - Aproximação para o entendimento da Dinâmica Populacional das Podostemaceae (Malpighiales), Distribuição Geográfica e Relação com Simuliidae (Diptera, Culicomorpha). http://simuliidae-neotropical-py.blogspot.com/2015/11/podostemaceas-simuliidae.html (atualizado em 11.11.2019). [Trabalho referente a uma visão geral]

Py-Daniel,V. & Py-Daniel,L.H.R. (1998) - Dinâmica de Dispersão, padrões de distribuição geográfica e aspectos relativos a transmissão de Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893) por simulídeos (Diptera:Culicomorpha:Simuliidae) na Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas. Entomologia y Vectores, Rio de Janeiro, Vol. 5 (5):191-215. [Trabalho referente a uma visão geral da dinâmica]

Py-Daniel,V., Andreazze,R. & Medeiros,J.F. (2000) - Projeto Piloto Xitei/Xidea (Roraima). I-Índices Epidemiológicos da transmissão de Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893) para os anos de 1995-1996. Entomologia y Vectores, Rio de Janeiro, Vol. 7 (4):389-444. [Trabalho referente as atividades entre 1995 e 1996]

Souza, F.S. & Py-Daniel,V. (2007) - Influência das movimentações Yanomami na endemicidade e dispersão da oncocercose no território Yanomami. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI, Brasília, v.4 (1): 187-212. [Trabalho referente as atividades entre 1995-1996 e o ano de 2001].







domingo, 10 de novembro de 2019

Podostemaceas-Simuliidae

Aproximação para o entendimento da Dinâmica Populacional das Podostemaceae (Malpighiales), Distribuição Geográfica e Relação com Simuliidae (Diptera, Culicomorpha).

V.Py-Daniel *

Resumo


São apresentadas as diferentes dinâmicas entre as associações de podosdemaceas e os imaturos simulideos, indicando assim uma relação inversa ao nível populacional. Quando as populações de podostemaceas começam a diminuir as de simulideos começam a aumentar. São apresentadas alguns locais onde foram assinaladas podostemaceas,  sendo as mesmas identificadas ao nível genérico ou específico.



Palavras Chaves: Podostemaceae, Simuliidae, Associações, Distribuição Geográfica.

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* Contato : katukina@gmail.com


As observações e anotações foram desenvolvidas durante os anos de 1998 e 1999, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Manaus), na Coordenação de Pesquisas em Entomologia, no Laboratório de Filarioses e Vetores. Alguns poucos trabalhos foram desenvolvidos na Amazônia associando a fauna as podostemaceas como Odonezt Collart  et all. (1996) e Tavares et. all. (1998). Ainda não foi desenvolvido um trabalho mais substancial que estude tanto as relações dinâmicas da cadeia trófica como as simples associações que ocorrem  com as podostemaceas. 


Podostemaceae e associações com simulideos.



Foi observado que existem limites que determinam a dinâmica das populações de podostemaceas, que são (Figura 1) :
  1. Um limite marginal de máxima enchente;
  2. Um limite marginal de máxima vazante;
  3. Uma linha de expansão (dispersão) máxima de uma população de Podostemaceae em uma cachoeira/corredeira
  4. Uma linha de retração máxima da população de Podostemaceae em uma cachoeira/corredeira.


Figura 1 – Esquema das áreas de dinâmica: A – A´ - Limite Máximo de alagação do curso d´água; B – B´ - Limite Mínimo de alagação do curso d´água; C – Área de Concentração das plantas, perfazendo um estoque populacional



Optando como ponto de partida para a descrição da dinâmica é usado o período hidro-sazonal denominado de cheia.

Quando o curso d´água inicia o processo de enchente até atingir os limites (A-A´), o estoque populacional (C) começa a aumentar do centro em direção as margens (Figura – 2). Durante o processo de enchimento, a partir da população estoque, ocorre um acréscimo na área colonizada, no sentido área de estoque => margens do curso d´água.


Figura 2 – Esquema do processo de inicio da expansão populacional lateralmente.


Figura 3 – Condição de expansão lateral máxima da população. Do centro para as margens do curso d´água.



Figura 4 – Condição de inicio de vazante. Nas laterais dos cursos de água as podostemaceas (E) ficam expostas ao ar.




Figura 5 – Condição de retração das podostemaceas para a área de estoque.



Assim, existem dois movimentos nítidos:

  1. Do centro para as margens – quando ocorre, na enchente, o aumento populacional das podostemaceas.
  2. Das margens para o centro – quando ocorre, na vazante, a diminuição populacional das podostemaceas.

Py-Daniel & Py-Daniel (1998, 1999) demonstram as dinâmicas de dispersão e retração das populações de simulídeos na Bacia Amazônica, indicando que as populações cujos os imaturos estão ligados aos substratos rochosos (aqui incluindo podostemaceas) diminuem nas enchentes e crescem nas vazantes. A dinâmica destes simulídeos (aqui incluindo T. guianense, principal vetor da Onchocerca volvulus), quanto a densidade populacional, apresenta-se inversa ao que ocorre nos seus substratos, ou seja:
a.       As podostemaceas aumentam o número de indivíduos, como também novas áreas colonizadas, quando as águas estão em níveis mais altos, ou seja, quando está ocorrendo a cheia, as plantas estão em um processo de expansão lateral e descendente. Esta atividade de expansão ocorre submersamente (Figura 6); as podostemaceas ampliam suas áreas foliares quando estão totalmente submersas.
b.      Os imaturos de simulídeos, como T. guianense, que usam as podostemaceas como substrato, aumentam (e conseqüêntemente os adultos também) o número de indivíduos com a aparente disponibilidade maior dos substratos, ou seja, na vazante das águas, aonde está ocorrendo a maior área de podostemaceas colonizáveis, quando começam a ficar próximas a superfície das águas {quando o processo de deslocamento hídrico descendente disponibiliza também maior turbulência – as plantas, normalmente localizadas nos “níveis de base” (Ver Py-Daniel & Py-Daniel,1998) oferecem resistência e flexibilidade na corrente descendente, causando a turbulência (e oxigenação) na superfície, fornecendo assim, as condições básicas para a re-colonização dos imaturos dos simulídeos.} (Figura 7).
c.       Quando começam a ocorrer os processos de retração das colônias de podostemaceas (diminuição das áreas foliares), restringindo assim a disponibilidade de substrato , ai se tornam mais presentes os processos de expansão das colônias de imaturos dos simulídeos.
d.      Esta aparente correlação direta entre disponibilidade de substrato (podostemaceas) para o aumento dos imaturos de simulideos também está diretamente ajustada as mudanças nos parâmetros físico-químicos nas áreas de “níveis de base” dos cursos d´água.


Figura 6 – Maior população de Podostemaceae ( Enchente)/ Diminuição populacional de simulideos (p.ex. T.guianense).




Figura 7 – Menor população de Podostemaceae (Vazante) / Aumento populacional de simulídeos (p.ex. T. guianense).




Na época da seca (quando a mesma não é muito extremada) ocorre que em alguns lugares nos “níveis de base” (cachoeira/corredeira) resistem alguns pequenos estoques populacionais de podostemaceas (com folhas), permitindo assim a presença de uma fauna associada, em reduzido número (pois ocorre intenso relacionamento entre os elementos desta fauna associada, como predação, etc.). Estas pequenas áreas servem para manter estoques populacionais que servirão para dar continuidade ao processo estacional seguinte. Muitas áreas com podostemaceas desaparecem em um “nível de base” induzindo que a fauna associada procure um outro lugar (normalmente mais para montante, pois para jusante os processos relacionais água-rocha-podostemaceas ficam menos evidentes no período da seca). Estas áreas que servem para a re-colonização dos segmentos inferiores do curso d´água servem de estoques (em manchas) populacionais (Py-Daniel & Py-Daniel, 1998). Esta colonização ascendente da fauna associada (que é feita pelos adultos) com o intuito de formar estoques, pode produzir um tipo de interação entre a população já estabelecida nesta área e a que está chegando, permitindo (favorecendo) assim uma macro-uniformização das espécies (interação/continuidade gênica) ao longo da calha do curso d´água.  Na época da seca, grande parte da área disponível de podostemaceas desaparece (ou não, depende da intensidade da seca) ficando apenas uma pequena parte presente. Quando começa o próximo período hídrico, enchente, ainda não existem áreas verdes disponíveis (áreas foliares) e a fauna associada procedente das áreas estoques ai se mantém e/ou são direcionadas para outras novas áreas estoques que estejam sendo formadas (tanto no sentido descendente, como transversal), ou seja, conforme vai ocorrendo o aumento do nível das águas, inicia o processo de expansão descendente e lateral das podostemaceas – lentamente, criando disponibilidade de novos substratos para a fauna associada. Normalmente o tempo para descer as águas (vazante) é mais longo que o de subir as águas (enchente – qualquer chuva eleva o nível das águas), isto indicando que as podostemaceas ficam mais tempo expostas (em contato) com a superfície das águas nas vazantes do que nas enchentes. Também durante o processo de enchente é que ocorre a expansão populacional das podostemaceas, e um determinado tipo de fauna ainda reduzida pode iniciar a aumentar conjuntamente.  

No mínimo existem dois tipos de faunas associadas a podostemaceas: (a) as que independem diretamente das características físicas (p.ex. turbulência) ocasionadas pelo contato das podostemaceas com a superfície das águas (p.ex. algumas espécies de peixes) e (b) as que dependem destas características físicas (p.ex. simulídeos).  A fauna do tipo (a) pode aumentar seus números populacionais quando ocorre o aumento populacional das podostemaceas (ou seja, uma correlação direta entre densidade da planta e a fauna associada), enquanto que a fauna do tipo (b) a correlação é inversa. Pode existir uma relação entre estes dois tipos de fauna, p.ex.: a fauna tipo (a) ser predadora da fauna tipo (b) o que induziria um aumento da fauna (a) diretamente proporcional ao aumento da fauna tipo (b). este ultimo aspecto tem que ser melhor estudado.

As folhas das podostemaceas que nascem primeiro normalmente apresentam coloração verde mais escura e as mais recentes apresentam colocação com tonalidade verde clara (além das estruturas inerentes da fase da planta que a diferenciam de velha e nova). Estas diferenças de tonalidades de coloração podem também estar diretamente ligadas a maior/menor tempo de  exposição a luz solar.

Existe um processo relacionado entre a superfície da água e o local onde encontramos os imaturos dos simulideos.

Em uma podostemacea (p.ex. Apinagia sp.), cujas as folhas se encontram em uma condição submergente liminar, ou seja, a poucos centímetros da superfície da água, e com nítida turbulência hídrica presente, as larvas e pupas dos simulideos são encontradas ao longo de toda a superfície – folhas e talos (Figura 8).


Figura 8. Esquema de um corte transversal de um curso d´água com uma folha de Apinagia sp. totalmente imersa e imaturos de simulideos (Sup = Superficie da água, Pod = Podostemaceae, L = Larva de simulideos, P = Pupa de Simulideo).


Figura 9. Esquema de um corte transversal de um curso d´água com uma folha de Apinagia sp. com ápice exposto e imaturos de simulideos em retração (Sup = Superficie da água, Pod = Podostemaceae, L = Larva de simulideos, P = Pupa de Simulideo).


Figura 10. Esquema de um corte transversal de um curso d´água com uma folha de Apinagia sp. apenas com base imersa e imaturos de simulideos em retração (Sup = Superficie da água, Pod = Podostemaceae, P = Pupa de Simulideo).


Conforme vai ocorrendo a diminuição do nível das águas, as folhas começam a ficar menos tempo em contato com a água e assim as larvas vão retraindo mais para a base das folhas, que, comparativamente, é o mesmo que ir no sentido subindo o curso d´água, em um processo contínuo e gradual (ou se desprendem e colonizam outra folha) até que a parte mole da folha termina e fica apenas o talo central, basilarmente, da folha em contato com a água (Figura 9). Neste momento as larvas que estavam em processo micro-ascendentes (no rio) {relativo ao direcionamento para a base das folhas} sofrem a indução para a fase seguinte, o empupamento. Nesta fase hídrica é encontrado um grande número de pupas (Figura 10.) nos verticilos dos talos e não são mais encontradas larvas (ou são apenas encontradas nas colônias de posdostemaceas em posição mais ascendente no curso de água.

Uma maneira de sabermos que ocorreu o que chamamos de “repiquete” (após ter sido iniciado um processo de vazante ocorreu uma nova subida das águas), em um determinado curso d´água é podermos observar nas podostemaceas submersas com folhas mais escuras, uma grande quantidade de casulos e/ou pupas nos verticilos das folhas, ou seja, o processo de vazante pode ser medido  pela cor das folhas associada a presença de casulos/pupas nos verticilos. Em outra época hídrica ocorreriam folhas com coloração verde claro e a presença de larvas e pupas/casulos ao longo de toda a folha.



Informações sobre a distribuição de podostemaceas



Ao longo de coletas dos imaturos de simulideos, foram anotadas varias localidades onde se encontram diferentes espécies de podostemaceas. Outra anotação interessante foi podermos analisar em herbários, a presença dos imaturos secos de simulideos nas folhas das podostemaceas na forma de exsicata, assim conseguimos ampliar o conhecimento da distribuição das espécies de simulídeos sem a necessidade de efetivar coletas em campo, e ao mesmo tempo termos um demarcador temporal de fauna presente em um determinado local, onde hoje, por modificações antrópicas, já está ausente (p.ex. número 24 da lista-2, o Salto de Piracicaba, local tipo de Simulium pintoi, hoje na sinonímia de T. guianense).

A seguir apresento algumas informações onde foram assinaladas podostemaceas.


LISTA (1) DAS ESPÉCIES DE podostemaceas


{* os números entre parênteses representam as localidades coletadas/assinaladas, que são indicadas na lista (2)}.


  1. Mourera fluviatilis Aublet (1,12,20,30)
  2. Apinagia kochii (Engler) V. Royen (1,2,12)
  3. Rhyncholacis sp.  A (3)
  4. Apinagia corymbosa (Tuslane) Engler (4)
  5. Apinagia multibranchiata (Matth.) V. Royen (5)
  6. Marathrum schiedeanum (Cham). Tul. (6)
  7. Mourera sp. A (7,13)
  8. Weddelina squamulosa Tulasne (9)
  9. Rhyncholacis aff. varians Wedd (9)
  10. Rhyncholacis hydrocichorium Tuslane (10)
  11. Mourera weddelina Tul. (13)
  12. Mourera aff. alcicornis Van Royen (8,13)
  13. Mourera sp. B (14,15,16)
  14. Apinagia sp. (17, 18, 27)
  15. Marathum capillacium Van Royen (19)
  16. Apinagia tenuifolia Van Royen (20)
  17. Ryncholacis linearis Tuslane (21)
  18. * Apinagia staheliana (Went) V.R. (22,30)
  19. * Apinagia richardiana Tul. (23)
  20. * Wettsteiniola accorsi (Toledo) V. Royen (24)
  21. * Podostemum dimorphum V. Royen (25)
  22. * Rincholacis crassipes Weddell (26)
  23. Ryncholacis sp.  (27,28,29)

LISTA (2) DAS LOCALIDADES


1.       Estrada BR-174 (Boa Vista -> Pacaraima), Roraima, Igarapé Sargento Ávila, 22-23.11.1995.
2.       Rio Catrimani, Cachoeira Catrimani, Terra Indígena Yanomami, Roraima, 26.11.1995.
3.       Rio Poana, Cachoeira Seca Superior, Formador do rio Trombetas, Pará, 10.07.1985.
4.       Rio Ajarani, Cachoeira do França, Terra Indígena Yanomami, Roraima
5.       Rio Cotingo, Roraima, 08.07.1995
6.       México
7.       Rio Xingu, Cachoeira do Sabão, Pará
8.       Rio Xingu, Cachoeira do Xarorou, Pará, 19.10.1992
9.       Rio Cachorro, Cachoeira Alta (São Pedro), afluente do rio Trombetas, Pará, 16.11.1985.
10.   Rio Mapuera, Cachoeira da Égua, primeiro tombo, Pará, 1985
11.   Rio Trombetas, Cachoeira Pirarara (a esquerda da cachoeira), Pará, 02.10.1985
12.   Rio Tepequem, Roraima
13.   Rio Xingu, Cachoeira do Gorgulho (do Espelho), Pará, 12.10.1992
14.   Rio Xingu, Cachoeira, Xororou-B, Pará, 19.10.1992
15.   Rio Xingu, Cachoeira Paissandú, Pará, 10.10.1992
16.   Rio Xingu, Cachoeira Kaituká, Pará, 09.10.1992.
17.   Igarapé Cambarú, afluente do rio Cotingo, Roraima, (04º.24´16N / 060º.20´56”W), alt. 240 mts., 24.11.1996, Equipe An-tá/LFV.
18.   Igarapé Rode, afluente do rio Cotingo, Roraima, (04º.22´26”N / 060º.24´15”W), alt. 210 mts., 24.11.1996, Equipe An-tá/LFV.
19.   Tepequem, Roraima, equipe moko-moko, 20-21.11.1995.
20.   Rio Uraricoera, lateral a Ilha de Maracá, Roraima
21.   Rio Negro (alto), Cachoeira das Flores, São Gabriel da Cachoeira, 07.12.1989.
22.   Rio Coppename – Suriname, Bij Raleighvallen, 10.09.1933, col. J. Lanjouw (* com simuliidae – do herbario do INPA)
23.   Suriname, Kaboerie aan de Corantijn, março de 1971, col. G. Den. Hollander (* com simuliidae – do herbário do INPA {material do Museu Utrech/Holanda).
24.   Salto do Rio Piracicaba, São Paulo, 30.08.1943 e 15.09.1943, col. Walter Radames Accorsi (* com simuliidae – do herbário do INPA)
25.   Morungava, Paraná, 18.01.1915, col. P. Dusén (16540) (do Herbarioum do M.Nat.Chicago-USA)(* com simuliidae – do herbário do INPA)
26.   Rio Waupés, raudal de Yurupari, Colombia, novembro de 1951, cols. Richard Schultes & Izidoro Cabrera (* com simuliidae – do herbário do INPA)
27.   Igarapé Miang, Pacaraima, Fronteira Brasil/Venezuela, Cidade de Pacaraima, (04º.29´32” N / 061º.04´47”W), Roraima, 07.03.1999, cols. U.C.Barbosa & O.S.Santos.
28.   Rio Surumu, cachoeira abaixo da ponte, Vila Pereira Surumu, 06,03.1999, col. Py-Daniel,V. & Barbosa,U.C. & O.S.Silva
29.   Rio Curiaú, Proximo da aldeia Samauma, afl. do Camanaú, Programa Waimiri-Atroari, 16.07.1998, col. Lima,A.C.
30.   Rio Jauaperi, Cachoeira Travessão, Municipio de Rorainópolis, 10.03.1999, cols. Py-Daniel,V. & Barbosa,U.C. & O.S.Silva.  


Figura 11 – Cachoeira Samaúma, Terra Indígena Waimiri-Atroari (rio Cuniaú), Amazonas/Roraima (criadouro de T. guianense) – Localidade citada com o número 29.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



Odonezt Collart, O. & Jegú,M. & Thacher,V. & Tavares,A.S. (1996) - Les prairies aquatiques de l´Amazonie brésilienne – ORSTOM Actualités, num. 49, 14 pgs.

Py-Daniel, V. & Py-Daniel, L.H.R. (1998) – Dinâmica de Dispersão, padrões de distribuição geográfica e aspectos relativos a transmissão de Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893) por simulideos (Diptera:Culicomorpha:Simuliidae) na bacia hidrográfica do rio Amazonas. Entomol. Vect., Rio de Janeiro, Vol 5(5): 191-215.

Py-Daniel,V. & Py-Daniel,L.H.R (1999) – Addenda – para o trabalho : Dinâmica de Dispersão, padrões de distribuição geográfica e aspectos relativos a transmissão de Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893) por simulideos (Diptera:Culicomorpha:Simuliidae) na bacia hidrográfica do rio Amazonas. Entomol. Vect., Rio de Janeiro, Vol 5(5): 191-215 (Vol 6(3):314, Tabela I).

Tavares,A.S. & Enriconi,A. & Odinezt Collart,O, (1998) - Insect communities associated with aquatic macrophytes Podostemaceae in amazonian waterfalls – Verh.Internat. Verein. Limnol. 26:2158-2161, Stuttgart.

(Esta postagem é a mesma postada em dezembro de 2015, mas o nome Malpighiales necessitou ser corrigido em 11.11.2019)

quarta-feira, 7 de março de 2018

Amplitude dos objetivos do Blog

A partir de hoje (07.03.2018) o Blog passa a ser chamado "Simuliidae Neotropical & Epidemiologia" no sentido de possibilitar agregar estudos das relações epidemiológicas de algumas espécies de simulídeos neotropicais com diferentes enfermidades as quais o ser humano esteja envolvido (p.ex. oncocercose, mansonelose, síndrome hemorrágica, etc...).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Parametros fisico-quimicos e fauna associada

Um dos trabalhos desenvolvidos dentro do Programa de Eliminação da Oncocercose para as Américas (OEPA), dentro do Brasil, no componente Epidemiologia, foi desenvolvido pela Dra. Gladys Vela Peña, na época Bolsista do CNPq-DTI, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), na então Coordenação de Pesquisas em Ciências da Saúde, no Laboratório de EtnoEpidemiologia e Etnoecologia (LETEP). Este trabalho faz parte do primeiro relatório parcial, apresentado em março de 1998, sendo que os dados foram coletados ao longo do ano de 1997. Apenas algumas pequenas modificações foram feitas dentro das necessidades de apropriar o texto para publicação.

Colaboraram ativamente nos trabalhos de campo e/ou laboratório, o biólogo Ulysses Carvalho Barbosa, o estudante de biologia Sr. Orlando dos Santos Silva, o Sr. Eliseu Lima Junior, que agora também assinam o trabalho.

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PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS E FAUNA AQUÁTICA ASSOCIADA AOS CRIADOUROS DE SIMULÍDEOS (DIPTERA: SIMULIIDAE) EM XITEI/XIDEA (TERRA INDÍGENA YANOMAMI), RORAIMA- BRASIL.


Vela Peña, G1.; Py-Daniel,V.2*; Barbosa, U.C2.; Silva, O.S2. & Junior, E.L2**

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1 – Na época Bolsista do CNPq-DTI (INPA); 2 (INPA/CPCS/LETEP [* - Atualmente associado a UnB/ICB/DZ/LEF; ** - Atualmente no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/CRH/DGP)]

Palavras Chaves: Simuliidae, fauna associada, parâmetros fisico-químicos, Xitei/Xidea, Yanomami, Roraima, Brasil.

RESUMO

Foram estudados parâmetros físico-químicos e a fauna associada a criadouros de simulídeos (Diptera, Simuliidae), em seis cursos d´água (Hara-ú, Capixara-ú, Kunemari, Thirei-ú, Watatas/Parima, Kurrucimabi) localizados na Terra Indígena Yanomami, Pólo Base de Saúde Xitei/Xidea, Roraima. Os dados obtidos demonstraram que mesmo sendo habitadas, pelos Yanomami, as margens destes cursos d´água, os mesmos apresentaram características de não alteração ambiental. Quanto a fauna, foram coletadas 12 ordens e 48 famílias.

INTRODUÇÃO

O território Yanomami abrange uma área de aproximadamente 192.000 km2 (Brasil e Venezuela), onde vivem cerca de 22.000 pessoas (Albert, 1987). No lado brasileiro, na região oeste do Estado de Roraima e norte de Estado do Amazonas, é estimado em torno de 10.000 Yanomami, em quase 200 comunidades, espalhados em uma área contínua de 90.400.00 ha. O Pólo Base de Saúde de Xitei/Xidea, onde foi desenvolvido este trabalho, tem 20 comunidades com uma população de 672 habitantes (MS-FNS).

A oncocercose é uma doença produzida pela filaria Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893) (Nematoda, Onchocercidae). As microfilárias se localizam no tecido subcutâneo produzindo dermatite e invasão do globo ocular, podendo ocasionar graves alterações da retina, que conduzem freqüentemente à cegueira (Rey, 1991). Esta doença foi registrada no Brasil nos anos 60 (Bearzoti et al., 1967). Nos últimos anos foram detectados focos da doença nos Estados de Roraima e Amazonas, entre os Yanomami e Ye´kuana (Moraes & Dias, 1972; Moraes & Chaves, 1974a,b; e Moraes et. al., 1976).

Devido ao grande perigo de outras áreas serem atingidas, é necessário que se conheçam os parâmetros que permitem assumir uma forma endêmica na Terra Indígena Yanomami e Ye´kuana, para assim serem possíveis aplicar medidas de controle da doença. As informações obtidas nas áreas de parasitologia, entomologia e oftalmologia revelaram áreas hiperendêmicas de oncocercose, como Xitei/Xidea (97%), Homoxi (88,7%), Tucuxim (85,3%), Surucucus (80,6%) e Toototobi (68,9%) (Py-Daniel, 1997).

Uma das maneiras de contribuir com as medidas que facilitem o controle, é ter conhecimento da bioecologia dos vetores, neste caso, os dípteros da família Simuliidae (piuns / borrachudos), principalmente nas fases imaturas, que são encontrados em cursos d´água. A importância destes insetos, como vetores de doenças ao homem e aos outros animais é conhecida, sendo que isto acontece através da transmissão de protozoários, vírus, e filarias. Por outro lado, algumas espécies de simulídeos perturbam com suas picaduras que podem chegar a produzir reações alérgicas (Coscarón et al., 1996). Pelo que se sabe, o principal vetor envolvido na transmissão da oncocercose na África é o Edwardsellum damnosum (= Simulium damnosum), na Guatemala o Ectemnaspis ochracea (= Simulium ochraceum), na Venezuela o Aspathia metallica (= Simulium metallicum), na Colômbia e Equador o Notolepria exiguua (= Simulium exiguum), no Maciço das Guianas, Venezuela e Brasil, o Thyrsopelma guianense (= Simulium guianense), e nas terras baixas das bacias dos rios Amazonas e Orinoco, o Cerqueirellum oyapockense (= Simulium oyapockense) (Rey, 1991).

A partir de 1993, no Brasil, diversos projetos interdisciplinares vem sendo desenvolvidos na Terra Indígena Yanomami. A FNS (Fundação Nacional de Saúde, na época) iniciou atividades epidemiológicas nesta área, como também o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), com um projeto específico – Endemias Focais da Amazônia do Hemisfério Norte, junto ao Programa de Controle da Oncocercose do Ministério da Saúde, o qual faz parte do Programa de Eliminação da Oncocercose nas Américas, que envolve seis países (México, Guatemala, Equador, Colômbia, Venezuela e Brasil).

Atualmente em alguns Pólos Base de Saúde, na Terra Indígena Yanomami, está sendo administrado o remédio Ivermectina (Mectizan), em um tratamento previsto para 12 anos, no sentido de eliminar a doença (CCPY, 1995). A outra forma de controle da doença, ao nível mundial, consiste em tentar evitar a transmissão através do combate aos vetores (Anônimo, 1976). A maioria dos trabalhos já realizados, esta abrange a taxonomia, biologia e controle químico deste grupo. Os vetores são pouco conhecidos, apesar dos muitos trabalhos realizados em diferentes países. Além de outras  espécies encontradas em toda a Terra Indígena Yanomami, especificamente, na área de Xitei/Xidea, são encontradas as seguintes espécies antropófilas: Thyrsopelma guianense, Notolepria exiguua, Psaroniocompsa incrustata, Cerqueirellum oyapockense e Ectemnaspis bipunctata (Py-Daniel, 1997), sendo que esta ultima aparentemente não apresenta importância epidemiológica, por apresentar baixa densidade de picada no ser humano (Shelley, 1997).

Como parte importante dos estudos que estão sendo realizados, obter o conhecimento dos habitats dos vetores nas formas imaturas (larvas/pupas) e a relação com a fauna e flora aquáticas associadas aos criadouros, para que resultem informações que tornem viáveis métodos de controle, epidemiologia e na própria dinâmica da transmissão são de fundamental necessidade (Dellome Filho, 1991; Hamada, 1993; Andrade & Py-Daniel, 1995). As informações que se tem sobre os criadouros das espécies de simulideos são as de Dellome Filho (1978 e 1983), as de Hamada (1988 e 1989) que abordam aspectos ecológicos dos criadouros, e as de controle natural por predação (Gorayeb 1978 e 1981). Na África o estudo dos fatores físico-químicos dos corpos d´água permitiu estabelecer diferentes grupos e habitats com base nas espécies do complexo Edwardsellum damnosum (= Simulium damnosum) (Grunewald, 1976).

A análise das características ecológicas dos habitats aonde se encontra uma espécie, pode ser útil para ver uma futura distribuição de espécies (prejudiciais) em locais onde estavam ausentes antes e aonde eventualmente, pode dispersar-se, pelas mudanças ambientais de origens antropogênicas, entre elas, a ampliação ou modificação, segundo Drake (1989) apud Coscarón et al. (1996).

São necessários, então, estudos sobre os elementos que influenciam na transmissão, entre eles a ação do ser humano, pois estes fatores podem ter efeitos sobre a dinâmica das populações dos vetores (Narbaiza, 1987). Segundo Coscarón et al. (1996) a comparação entre os caracteres ecológicos e as áreas de endemismo de espécies de Simulium mostram uma grande concordância.

Alguns trabalhos realizados na Amazônia tratam sobre a fauna associada aos estágios imaturos dos simulídeos, entre eles o de Magni-Darwich et al. (1993) que encontrou uma maior representatividade dos Tricópteros e Odonatos em, criadouros de igarapés perturbados sobre a densidade e diversidade da entomofauna.

Assim, a proposta deste trabalho foi conhecer a bioecologia de populações de T. guianense e a caracterização dos criadouros nos diferentes cursos de água da área denominada Xitei/Xidea (Polo Base de Saúde), em Roraima, na Terra Indígena Yanomami, onde a prevalência da doença oncocercose, foi detectada como sendo 97,9%.

OBJETIVO GERAL

Avaliar aspectos físico-químicos dos cursos de água considerados habitats da fase imatura de diferentes espécies da família Simuliidae (Diptera), caracterizando a fauna associada aos criadouros, assim como também estudar a possível relação trófica entre os elementos faunísticos.


OBJETIVOS ESPECÍFICOS

a.     Coleta de fauna, substrato vegetal e água dos diferentes cursos de água a serem avaliados para as respectivas análises.
b.     Caracterizar os diferentes ambientes aquáticos onde sejam encontrados os criadouros de simulídeos, quanto as suas condições abióticas e verificar se existem diferenças na composição da fauna.
c.  Identificar a fauna dos criadouros para determinar a estrutura da comunidade e os grupos mais representativos associados aos simulideos.


MATERIAL E MÉTODOS

Área de coleta

A pesquisa foi desenvolvida na Terra Indígena Yanomami, na região montanhosa (altitude variando entre 750 e 1.200 mts.) do Escudo das Guianas, no Pólo Base de Saúde Xitei/Xidea (a sede do Pólo fica a 02o36´25” N / 063o52´18” O). Esta área está situada na Serra do Parima, com uma distância linear de 350 km de Boa Vista, capital de Roraima, Brasil (Figura. 1).

Figura 1. Localização do Pólo Base de Saúde Xitei/Xidea no rio Parima, Roraima (seg. Milliken & Albert, 1997).


A orografia desta região é, em geral, bastante evidente. A cobertura vegetal caracteriza-se por densa floresta equatorial úmida. Esta floresta ombrófila de montanha corresponde à cobertura vegetal predominante a noroeste do Estado de Roraima, nas regiões das Serras Parima (Silva, 1997).

O clima da Serra Parima é do tipo Monção caracterizado por altas chuvas de 8 à 10 meses e poucas chuvas, ao inicio do ano. Geralmente de E para NE na estação seca e de S para SE (convergência intertropical) para o resto do ano (Shelley et al., 1997). A região dos altos relevos (norte e nordeste) possui elevado índice de precipitação anual, a média está próxima dos 2.000 mm/ano, com pouca variação ao longo do ano (Barbosa, 1997). O clima é tipicamente dividido em estação chuvosa e seca (inverno e verão).

Quanto aos igarapés e rios estudados, todos são afluentes do rio Watatas ou Parima que é importante curso de água da área, que junto com o rio Auaris, formam o Rio Uraricoera. Estes corpos de água são de terra firme, portanto cobertos pela floresta, o sedimento do fundo, em geral, é areia, pedra e lodo, com áreas cobertas de folhiço e galhos. Os locais de coleta foram escolhidos quando eram encontrados os criadouros dos simulideos.

Métodos

As coletas da fauna dos criadouros, nos diferentes cursos d´água  foram obtidas, dependendo do tipo de substrato, com a ajuda de rapiché ou raspagem ou lavagem do substrato. A fauna coletada foi acondicionada em vidros com álcool a 70%. Para esta fase do projeto, o material coletado foi triado, quantificado e identificado, em geral, ao nível de família. Posteriormente, será feita a identificação até o menor nível de abrangência possível e a análise do conteúdo estomacal da fauna associada aos simulídeos. O material bibliográfico usado na identificação da fauna foi de Bertrand (1972), Needham & Needham (1978), McCafferty (1981), Roldán (1988) e Merrit & Cummins (1996).

As determinações limnológicas “in loco” de alguns parâmetros como temperatura, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram realizadas com a ajuda de aparelhos específicos. O trabalho de campo incluiu coleta de água para análise posterior nos laboratórios do INPA, de alguns nutrientes como: silício, fosfato, ferro dissolvido e total, nitrogênio amoniacal, nitrogênio de nitrato e nitrito, principais íons como cálcio, magnésio, sódio, potássio e cloretos.

Para as análises físico-químicas das águas, foram consideradas as recomendações do Programa Biológico Internacional (International Biological Program – IBP) Golterman & Clymo (1971), Strickland & Parsons (1972), Golterman et al. (1978) e Mackreth et al. (1978).

Também foi coletado material vegetal que serve de substrato para a fauna.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

As coletas intensivas forma iniciadas em abril e a última foi em dezembro de 1997. Shelley et al. (1977), consideram o mês de maio como estação chuvosa e dezembro como estação de seca. Em total foram realizadas seis coletas programadas, mesmo não ocorrendo na intensidade e datas programadas.

As atividades programadas para a primeira fase do estudo também foram concluídas, faltando ainda a identificação mais detalhada da fauna e da vegetação usada como substrato pelos simulideos. Falta ainda a análise do conteúdo estomacal da fauna associada aos criadouros para determinar os predadores naturais.

Vale ressaltar que os criadouros de Thyrsopelma guianense não foram trabalhados, mas se pretende desenvolver coletas em outros locais ainda não amostrados. Sendo esta espécie a principal vetora da Onchocerca volvulus, nesta área, como também a mais abundante, sendo assim urgente trabalhar nos seus criadouros.

Caracterização dos criadouros

A endemia oncocercose ocorre em focos situados em torno a criadouros de simulideos e a distribuição destes é determinada pela hidrografia característica da região. Porém, os corpos de água, em que se criam os imaturos, são variados, indo dos grandes rios aos pequenos riachos, o que deve estar em relação com as exigências diferentes das várias espécies (Rey, 1991).

O Hara-ú (na língua Yanomami), chamado também de Igarapé das Irmãs, é um ambiente lótico de pequeno porte, de águas transparentes, o leito com areia, pedras e pouco folhiço, e na maior parte sombreado. No local de coletas, a largura do igarapé tem de 110 a 250 cm e profundidade de 0,10 a 0,63 cm (Figura 2).

Figura 2. Características do Hara-ú (Igarapé das Irmãs)

O Capixara-ú, ou igarapé da FUNAI, é de águas transparentes, com sedimento de areia, argila e limo fino. O local das coletas tem largura de aproximadamente 180 a 300 cm e profundidade de 0,20 a 0,45 cm (Figura 3).

Figura 3. Características do Capixara-ú (Igarapé da FUNAI).


O rio Kunemari é também de águas transparentes, com sedimento de areia, limo e pequenas pedras. A largura varia de 400 a 670 cm e a profundidade de 0,20 a 0,60 cm (Figura 4).


Figura 4. Característica do rio Kunemari.


O rio Kurrucimabi fica mais afastado da sede do Pólo Base, é um igarapé pequeno e raso. Neste local encontramos um grande criadouro de Hemicnetha rubrithorax, espécie de simuilideos que não foi encontrada nos outros criadouros.


Já o Thirei-ú é de maior porte que os descritos acima, com maior quantidade de folhiço, sedimento com areia, pedras e limo. A largura é de 7,5 a 22,70 m, com profundidade de 0,10 a 0,60 cm. Têm trechos com bastante correnteza (Figura 5).


Figura 5. Características do rio Thirei-ú.


O rio Watatas ou Parima é o maior rio da área, sendo o centro da bacia hidrográfica na região. O sedimento do leito também é variado, trechos com areia e pedras pequenas e muito grandes, com limo fino e áreas com correnteza. A largura máxima nos locais de coleta foi de 50 metros e o mínimo de 300 cm, já a profundidade máxima não foi possível determinar neste local, a mínima foi de 0,20 cm (Figura 6).


 
Figura 6. Características do rio Watatas ou Parima.


A altitude e a presença de rios encachoeirados constituem fatores que influem bastante na distribuição dos transmissores (Moraes & Fraiha Neto, 1976).

Nas tabelas 1, 2, 3 mostramos os dados limnológicos dos locais estudados. A temperatura ambiental foi determinada sempre pela manhã, quando eram realizadas as coletas, sendo que variou entre 23oC à 31,2oC.


Tabela 1. – Dados Limnológicos dos diferentes corpos de água (abril de 1997).


Tabela 2. – Dados Limnológicos dos diferentes corpos de água (agosto de 1997).


Tabela 3. – Dados Limnológicos dos diferentes corpos de água (dezembro de 1997).


Quanto as características físico-químicas da água foi registrada uma temperatura máxima de 23,7oC, no Igarapé da FUNAI e uma mínima de 19,2oC no rio Thirei-ú. Estes ambientes são de águas transparentes, entretanto, os menores valores de turbidez foram no Igarapé da FUNAI (1,6 FDU) e rio Kunemari (1,8 FDU).

O oxigênio dissolvido variou de 3,6 mg/l no rio Thirei-ú à 8,5 mg/l no rio Kunemari, mas a média nos corpos de água estudados foi de 6,2 mg/l, também Alencar (1993) encontrou valores semelhantes em igarapés de terra firme localizados na Amazônia Central (Reserva Ducke).

Estes corpos de água são de ligeiramente alcalinos à alcalinos, o valor mínimo de pH foi determinado no Igarapé das Irmãs (6,6) e o máximo no Igarapé da FUNAI (7,2).

Segundo Sioli (1976), as águas claras provenientes dos sedimentos do Terciário na Amazônia Central são os mais pobres e ácidos dos que se originam nos Escudos do Brasil Central e da Guiana, onde estariam enquadrados estes ambientes deste estudo. Já o valor mínimo da dureza foi de 1,958 mg/l no Igarapé das Irmãs e o máximo de 25,321 mg/l, no rio Thirei-ú.

Quanto a condutividade elétrica, o mínimo valor registrado foi de 10 mS/m2 no Igarapé das Irmãs, de forma estável, e o máximo de 60 mS/m2 nos rios Thirei-ú e Kunemari.

Os macronutrientes foram relativamente altos quando comparados aos igarapés da Amazônia Central. O nitrogênio amoniacal foi de 0,043 mg/l no Igarapé da FUNAI e 0,272 mg/l no Igarapé das Irmãs. Na coleta do mês de agosto/97, o nitrato esteve abaixo do limite do método ( < 0,003 ), em todos os locais de coleta (Parima, Thirei-ú, Funai, Kunemari, Irmãs e Kurrucimabi). Já o nitrito não foi detectado nos locais, evidenciando serem ambientes não poluídos. Este seria um fator positivo para um bom desenvolvimento dos simulídeos nestes ambientes, pois existe a possibilidade de que a poluição da água possa reduzir as populações deste grupo (Travis et al., 1979 e Grunewald, 1976).

O valor mínimo do fosfato foi de 0,003 mg/l no Rio Parima e FUNAI, e o máximo foi de 0,023 mg/l no Igarapé das Irmãs. Os valores de silício foram altos, o mínimo de 1,68 mg/l no Igarapé das Irmãs e o máximo de 4,89 mg/l no Rio Thirei-ú.

A composição iônica ou micronutrientes dos corpos de água determinados foram, de Fe total e dissolvido, sendo que este último não foi detectado pelo método usado. Já o ferro total foi menor no Igarapé das Irmãs (0,04 mg/l) e o máximo no Rio Thirei-ú (0,83 mg/l). A concentração mínima de cálcio foi de 0,737 mg/l no Rio Parima e o máximo de 5,707 mg/l no Rio Kunemari. O magnésio foi menor no Igarapé das Irmãs (0,097 mg/l) e o máximo no Rio Thirei-ú (2,323 mg/l). Dos cloretos, o mínimo foi de 0,426 mg/l no Igarapé das Irmãs e o máximo de 1,207 mg/l no Rio Thirei-ú. Quanto ao sódio, o mínimo foi de 1,1 mg/l no Igarapé das Irmãs e o máximo de 3,6 mg/l no Igarapé da FUNAI. Já o potássio foi mais baixo no Igarapé das Irmãs (0,6 mg/l) e o mais alto no Rio Thirei-ú (245 mg/l).

Os corpos de água analisados neste estudo, têm maiores concentrações de nutrientes, em geral, são alcalinos e têm melhor composição iônica do que os igarapés e rios de terra firme do Estado do Amazonas, como o rio Preto da Eva, Igarapés da estrada Manaus-Caracaraí, da bacia do rio Parauari-Maués Açú, da área da Reserva Ducke, do Irarapé Tarumã-Mirim. Estes Ecossistemas são muito deficientes em nutrientes e tem baixo pH (Santos et al., 1971; Schmidt, 1972; Bringel et al., 1984; Magni-Darwich et al., 1993; Alencar, 1993; Walker, 1995). Isto é considerado como típico para a maior parte dos ambientes da bacia do Amazonas porque refletem as condições de solo (Klinge & Ohle, 1964; Fittkau, 1964 e 1967).

Porém, algumas variáveis aqui analisadas são semelhantes aos encontradas em afluentes do Rio Negro, isto porque esta região é fertilizada por áreas inundáveis, pelo desmatamento e queimadas (Santos et al., 1984). Também os nossos dados são comparáveis aos do Rio Castanho (AM), isto devido a sua origem em formações ricas em calcário (Grupo Cuiabá, Jangada e Alto Paraguai) que são mais ricos em eletrólitos (Junk & Furch, 1980). As condições hidroquímicas dos corpos de água refletem às condições dos solos que drenam, provavelmente, na região do nosso estudo, afloram algumas rochas carbonatadas, por isto apresentaram teores mais elevados de nutrientes.

Particularidades petrográficas locais, podem provocar, especialmente em pequenos igarapés, diferenças significativas nas concentrações de eletrólitos em suas águas (Junk & Furch, 1980).

Estes corpos de água oferecem condições para os simulideos e outros organismos se desenvolverem, alimentar e reproduzir. Porém, os organismos são influenciados por fatores como as variações hidrológicas, o pH, os predadores, competidores e parasitas, etc.

Por exemplo, as fêmeas de Ectemnaspis rototaense (publicado por Gorayeb, 1981, como Simulium fulvinotum), colocam os seus ovos em folhas, gravetos, pedras, troncos ou outros garranchos presos na correnteza, na superfície, principalmente em trechos de maior correnteza. A atividade de postura é estimulada após maiores temperaturas do ambiente e quando começa a queda da luminosidade. Também a temperatura influi na duração do desenvolvimento larvário (Rey, 1991).


Composição da fauna


Em igarapés que correm na sombra da floresta densa, não há praticamente nenhuma produção primária. Apesar disso existem muitos animais que vivem nesses ambientes. Alimentação desta fauna é alóctone: flores, folhas, frutos e todo o detrito da mata circundante que caem dentro dos corpos de água, seja, eles decompostos ou não são aproveitados pelos animais, que por sua vez servem de alimento para outros animais (Köppel, 1970).

Da fauna coletada nos criadouros foram identificadas 48 famílias (Tabela 10.)  pertencentes as classes Insecta, Crustacea, Gastropoda e Pisces que estão incluídas nos filos Arthropoda,. Mollusca e Chordata. Quanto aos insetos, as ordens mais representativas foram Ephemeroptera, Odonata, Trichoptera, Coleoptera e Diptera (Tabelas 4a-b, 5a-b, 6a-b, 7a-b, 8a-b e 9a-9b).


(4a)

(4b)

Tabelas 4a e 4b – Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do Igarapé das Irmãs, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


(5a)

(5b)

Tabelas 5a e 5b - Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do rio Thirei-ú, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


(6a)

(6b)

Tabelas 6a e 6b - Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do Igarapé da FUNAI, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


(7a)

(7b)

Tabelas 7a e 7b - Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do rio Parima / Watatas, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


(8a)

(8b)

Tabelas 8a e 8b - Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do rio Kunemari, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


(9a)

(9b)


Tabelas 9a e 9b - Composição e abundância da fauna coletada nos criadouros do rio Kunemari, do Pólo Xitei/Xidea, em 1997.


Tabela 10. Número de famílias encontradas em cada curso d´água estudado.


Os dípteros foram o grupo mais freqüente nos diversos locais amostrados, seguido dos tricópteros em algumas locais, os odonatos e os coleópteros (Figuras 7 e 8).


Figura 7. Freqüência relativa da fauna nos igarapés das Irmãs, FUNAI e rio Parima.


Figura 8. Freqüência relativa da fauna nos rios Thirei-ú, Kunemari e Kurrucimabi.


No Igarapé das Irmãs, o número de famílias foi maior do que nos outros corpos de água, já o número de indivíduos foi semelhante, considerando os níveis baixos de nutrientes, pH e condutividade elétrica, quando comparados aos outros ambientes estudados. Entretanto, o oxigênio dissolvido do Igarapé das Irmãs foi relativamente mais alto em todas as coletas, uma explicação para isto poderia ser devido ao processo de estabilização que a fauna bentônica precisa, que estaria pela sua vez, na dependência de uma melhor oxigenação da água (Irmler, 1978).

Quanto à ausência dos imaturos de T. guianense nos arredores da sede do Pólo Base, além da ausência de plantas Podostemaceae (consideradas preferidas pelo gênero Thyrsopelma), não existe outra explicação. Estas plantas podem ser encontradas em distâncias maiores, cerca de 2.000 mts ao norte-nordeste deste local, onde são encontradas larvas e pupas da mesma. A direção do vento, quando se está na sede o Pólo Base, é sempre procedente do Norte-Nordeste, o que justifica a alta presença das fêmeas desta espécie após os ventos aumentarem.  (informações inéditas de Py-Daniel). Buddem, 1956 apud Moraes & Frahia Neto (1976) observou no norte da Nigéria que a prevalência da oncocercose, em diferentes vilas, não caia de maneira apreciável até uma distancia de 12 km dos rios onde se localizavam os criadouros, mas para além dessa distancia, o índice de infecção diminui rapidamente. Os maiores índices estavam assim com as populações vivendo mais próximas das margens dos cursos d´água, onde proliferam os criadouros dos vetores.

Como já se assinalou, estes locais, aparentemente, não sofrem perturbação pelo homem e não mostraram indícios de poluição; a fauna é diversa e própria de ambientes sem perturbação.

Os grupos da entomofauna encontrados nos ecossistemas estudados são também indicadores dos diversos tipos de ambientes. As famílias da ordem Trichoptera, como Calamoceratidae, Hidroptilidae, Philopotamidae e Hydrobiosidae são indicadoras de águas oligotróficas (pouca produtividade primária). Hydropsychidae de oligo a eutrófico, já os Helicopsychidae de oligomesotrófico. Dos Ephemeroptera, as famílias Baetidae, Oligoneuriidae, Leptophlebiidae e Euthyplociidae são indicadoras de águas limpas. Dos Odonata, os Libellulidae, Gomphidae, Agrionidae e Megapodagrionidae, variam entre ambientes oligomesotróficos à oligotróficos. Dos Plecoptera, os Perlidae são indicadores de águas limpas e oligotróficas. Os Neuroptera também são indicadores de águas oligotróficas. Dos Hemiptera, Naucoridae, Veliidae, Pleidae são indicadores de águas oligomesotróficas à oligotróficas. Dos Coleoptera, Gyrinidae, Elmidae e Dryopidae de águas pouco profundas. Também os Lepidoptera são indicadores de águas oligotróficas. Em Diptera, só Simuliidae e Blepharoceridae são indicadores de águas oligotróficas; os Tipulidae, Ceratopogonidae, Chironomidae e Empedidae são indicadores de águas oligomesotróficas. Finalmente, os Gastropoda são indicadores de águas duras e alcalinas (Roldán, 1988).


CONCLUSÕES

1.    Pelos dados limnológicos e os grupos predominantes da fauna nos ecossistemas estudados, podemos concluir que são corpos de água não alterados, mesmo com as populações indígenas habitando nestas áreas. Estes corpos de água oferecem condições ótimas para os simulídeos e outros organismos aquáticos se desenvolverem, alimentarem e reproduzirem.
2. O Igarapé das Irmãs (Hara-ú) foi o ecosistema que teve as menores concentrações de nutrientes principais, composição iônica e pH. Porém, o número de famílias, da fauna, foi maior neste local, seguido dos rios Thirei-ú e Parima. Já o rio Thirei-u teve os maiores valores destas mesmas variáveis e o maior número de indivíduos encontrados. Os rios que tiveram maior condutividade elétrica foram Thirei-ú, Kunemari e Kurrucimabi.
3.   A fauna coletada foi diversa, composta de 12 ordens e 48 familias. Os grupos que tiveram maior representatividade foram Trichoptera, Odonata, Coleoptera, Diptera e Ephemeroptera, já os mais abundantes foram Diptera, Trichoptera, Coleoptera e Plecoptera.

Além das quatro espécies praticando hematofagia no ser humano, foi encontrada no Polo Base Xitei/Xidea a espécie Hemicnetha rubrithorax, no rio Kurrucimabi.


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